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Ficha Técnica

Título original: Linchpin

Título: Como se Tornar Indispensável

Autor: SETH GODIN

Revisão: Isabel Ramos

Design: subbus:designers

Capa: rui[lúcio]carvalho

Ilustrações de: Jessica Hagy e Hugh MacLeod

Traduzido do inglês por: Mário Dias Correia

ISBN: 9789892312095

LUA DE PAPEL

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Linchpin é o título original deste livro, e é um belo título. Mas em inglês. Em português, a tradução correcta seria cavilha. Porque linchpin é a cavilha que impede (por exemplo) que uma roda se solte do eixo. Dito de outra forma, é a peça-chave sem a qual o sistema não funciona.

Há, porém, um problema: as palavras cavilha ou peça-chave têm muito pouco de sexy e dariam péssimos títulos. Socorremo-nos, portanto, da mensagem do livro e daquilo que o livro pretende ensinar: Como se Tornar Indispensável.

o editor

para a Helene

INTRODUÇÃO

Todos Somos Génios

Se um génio é alguém dotado de competências excepcionais e com visão para arranjar soluções que não são assim tão óbvias, não é preciso ganhar o Prémio Nobel para pertencer ao grupo. O génio olha para qualquer coisa onde todos os outros emperraram e põe o mundo a andar para a frente.

Portanto, a questão é: alguma vez fez qualquer coisa do género?

Alguma vez viu um atalho que mais ninguém conseguiu ver?

Resolveu um problema que confundia toda a família?

Arranjou maneira de pôr a funcionar qualquer coisa que antes não funcionava?

Criou uma ligação pessoal com alguém até então inacessível a toda a gente?

Uma vez que fosse?

Ninguém é um génio a tempo inteiro. Einstein tinha dificuldade em encontrar a casa onde morava quando regressava do trabalho. Mas todos nós somos génios uma vez por outra.

A tragédia é que a sociedade (a sua escola, o seu patrão, o seu governo, a sua família) insiste em abafar estridentemente a parte de génio que há em si. O problema é que a cultura a que pertencemos embarcou num negócio faustiano, em que trocamos a nossa genialidade e a nossa capacidade artística por uma aparente estabilidade.

Realidade

Um sujeito viaja de comboio numa carruagem de primeira classe, em Espanha, quando descobre, encantado, que está sentado ao lado de Pablo Picasso. Fazendo apelo a toda a sua coragem, volta-se para o mestre e diz:

– Señor Picasso, é um grande artista, mas porque tem toda a sua arte, toda a arte moderna, de ser tão arrevesada? Porque não pinta a realidade, em vez destas distorções?

Picasso hesita um instante, e diz:

– Como acha então que é a realidade?

O homem pega na carteira e tira de lá uma fotografia da mulher.

– Assim. É a minha mulher.

Picasso pega na fotografia, olha para ela e sorri.

– A sério? É muito pequena. E plana.

Este livro é sobre amor e arte e mudança e medo. É sobre vencer uma conspiração multigeracional destinada a minar a sua criatividade e o seu inconformismo. É sobre liderar e fazer a diferença e é sobre conseguir ter êxito. Não poderia tê-lo escrito há dez anos, porque, há dez anos, o que a nossa economia queria era que nos enquadrássemos, e pagava-nos bem para nos enquadrarmos, e tomava conta de nós a partir do momento em que nos enquadrássemos. Agora, gostemos ou não, o mundo quer uma coisa diferente. Precisamos de pensar seriamente em como é hoje a realidade.

E se conseguisse aprender uma maneira diferente de ver, uma maneira diferente de dar, uma maneira diferente de ganhar a vida? E se pudesse fazer tudo isto sem deixar o seu emprego?

Este livro não se destina aos lunáticos desgrenhados que a sua empresa conserva num canto. Destina-se a si, ao seu patrão, aos seus empregados, porque para nós, no futuro, o melhor mundo é aquele em que cada um contribui com o melhor de si e o melhor do seu trabalho. Está preparado para isso?

Uma promessa: o mundo que aí vem (e este livro) não é pequeno nem plano.

Desta Vez é Pessoal

Isto é um manifesto pessoal, uma promessa que lhe faço, a si. Neste momento, não estou focado no externo, nas organizações tácticas usadas para fazer grandes produtos ou divulgar ideias importantes. Este livro é diferente. É sobre uma escolha e é sobre a sua vida. Esta escolha não lhe exige que abandone o seu emprego, embora o desafie a repensar o modo como faz o seu trabalho.

O sistema em que crescemos está uma desgraça. Está a rebentar pelas costuras e muita gente de que eu gosto está a sofrer porque as coisas que pensávamos que funcionavam não funcionam. Todos os dias encontro pessoas que têm tanto para dar mas que foram tão pressionadas, ou tão atemorizadas, que se fecharam em si mesmas. Tornaram-se vítimas, peões de um sistema insensato que as usa e as subestima.

Deixe de alinhar com o sistema e comece a desenhar o seu próprio caminho.

Pare de se contentar com pouco e comece a criar arte que faça a diferença. Pare de pensar no que é que tem a ganhar e comece a distribuir dádivas que mudem as pessoas. Então, e só então, terá realizado o seu potencial.

Durante centenas de anos, a população foi seduzida, enganada, induzida a enquadrar-se, a seguir instruções e a trocar um dia de trabalho por um dia de salário. Essa era chegou ao fim, e já ia sendo mais do que tempo.

Há uma chama dentro de si, a sua contribuição é valiosa, a arte que cria é preciosa. Mais ninguém pode fazê-la, cabe-lhe a si. A minha esperança é que se ponha de pé e opte por fazer a diferença.

Fazer a Escolha

O meu objectivo é convencê-lo de que há uma oportunidade ao seu alcance, uma possibilidade de mudar significativamente a sua vida para melhor. Não a fazer qualquer coisa que seja fácil ou para que tenha sido treinado, mas compreendendo que as regras deste nosso mundo foram fundamentalmente alteradas e aproveitando o momento para se tornar alguém que todos considerem indispen­sável.

Tudo começa com uma simples escolha.

Sei que é capaz de fazer isto e espero que o faça. E quando o fizer, se o fizer, espero que partilhe a ideia com alguém de que goste.

O Contrato Tomo-Conta-de-Ti

Foi este o contrato que os nossos pais assinaram em nosso nome:

O nosso mundo está cheio de fábricas. Fábricas que produzem aparelhómetros e seguros e websites, fábricas que produzem filmes e tratam dos doentes e atendem telefones. Essas fábricas precisam de trabalhadores.

Se aprenderes a ser um desses trabalhadores, se estiveres com atenção na escola, seguires as instruções, te apresentares a tempo e horas e te esforçares muito, nós tomamos conta de ti. Não precisarás de ser brilhante ou criativo ou de correr grandes riscos.

Pagar-te-emos uma porção de dinheiro, dar-te-emos um seguro de saúde e garantir-te-emos o emprego. Mimar-te-emos, ou, no mínimo dos mínimos, tomaremos conta de ti.

É uma proposta bastante sedutora.

Tão sedutora que, durante um século, a aceitámos. Criámos escolas e sistemas e governos para apoiar este contrato.

Funcionou. A Fortune 500 tomou conta de nós. O sindicato dos professores tomou conta de nós. A estação de correios e o retalhista da esquina tomaram conta de nós. Seguimos as instruções, lavámos garrafas, apresentámo-nos a tempo e horas, e, em troca, recebemos aquilo de que precisávamos. Foi o Sonho Americano. Durante muito tempo, funcionou.

Mas, confrontado com a competição e a tecnologia, o contrato desfez-se.

O crescimento do emprego está a zero, na melhor das hipóteses.

Em muitas indústrias, os salários entraram num ciclo negativo.

A classe média está sitiada como nunca esteve, e o futuro anuncia-se negro. Já ninguém toma conta de ninguém: os subsídios sumiram-se, os planos de poupança-reforma foram reduzidos a metade, e é difícil ver para onde ir a partir daqui. Pode ser a esforçada secretária, aquele que possui conhecimento institucional, a pessoa que deu muito e merece segurança e respeito. E embora possa merecer estas coisas, o seu desempenho não lhe garante que vai consegui-las.

De repente, muito de repente no esquema das coisas, o que parece é que o trabalhador obediente embarcou num negócio de totós. As massas educadas, trabalhadoras, continuam a fazer o que lhes mandam, mas já não recebem o que merecem.

Esta situação oferece uma maravilhosa oportunidade.

Sim, é uma oportunidade. Uma oportunidade de gostar verdadeiramente do seu trabalho, de fazer a diferença para os seus colegas e para os seus clientes, de abrir a porta ao génio que manteve escondido todos estes anos.

É pura perda de tempo esforçarmo-nos por restaurar o contrato tomo-conta-de-ti. Está morto, e não vale a pena chorar nem serve de nada queixarmo-nos. Há agora um novo contrato, um contrato que promove o talento e a criatividade e a arte em vez de recompensar a obediência.

De Onde Vem o Êxito?

Todos os dias, patrões, clientes e investidores fazem escolhas difíceis relativamente a quem apoiar e quem eliminar, reduzir ou evitar.

Dediquei os últimos vinte anos a estudar dezoito ramificações desta simples pergunta. Exemplos:

Porque é que algumas tácticas resultam melhor do que outras? Porque é que alguns empregados são muito mais produtivos do que outros? Porque é que algumas organizações murcham e morrem quando confrontadas com um mercado tumultuoso enquanto outras prosperam? Porque é que algumas ideias conhecem uma enorme divulgação enquanto outras são ignoradas?

Este livro é a minha resposta.

De Onde Vem a Média?

Vem de dois lugares:

1. A escola e o sistema condicionaram-nos a acreditar que a nossa obrigação é fazer o nosso trabalho e seguir instruções. Já não é.

2. Todos temos dentro da cabeça uma vozinha zangada e receosa. Essa voz é a resistência – o nosso cérebro reptiliano – e quer que façamos parte da média (e estejamos seguros).

Se não está a safar-se tão bem como esperava, talvez seja porque as regras do jogo foram alteradas e ninguém lhe disse nada.

As regras foram escritas há cerca de duzentos anos; funcionaram durante muito tempo, mas já não funcionam. Pode ser que demore mais do que meia dúzia de minutos a aprender as novas regras, mas vale a pena.

Desenvolver a Indispensabilidade

Convença-se disto: não nasceu para ser uma rodinha da monstruosa máquina industrial; foi treinado para se tornar uma rodinha da monstruosa máquina industrial.

Mas tem uma alternativa ao seu alcance. Tornar-se uma peça-chave é um processo gradual, um caminho ao longo do qual vai desenvolvendo os atributos que fazem de si alguém indispensável. E para o conseguir, pode treinar-se a si mesmo. O primeiro passo é o mais difícil: é aquele em que reconhece que isto é uma competência e, como todas as competências, pode (e vai) aperfeiçoá-la. Concentre-se nas dádivas, na arte e na capacidade de estabelecer ligações que caracterizam a pessoa peça-chave, e tornar-se-á todos os dias um pouco mais indispensável.

Não interiorize o modelo industrial. Você não é apenas mais uma entre as milhares de peças intermutáveis, é um ser humano único, e se tem alguma coisa a dizer, diga-o, e pense bem de si mesmo enquanto aprende a dizê-lo melhor.

david mamet